João de Camargo
João de Camargo

 

joão de camargo

GUIA Glorioso JOÃO DE CAMARGO, vós que tem a graça recebida de Deus de defender-nos contra o mal, e nos ajuda a receber o bem, peço-vos Senhor, que retire todo mal, que nos tortura, defendei-nos também contra as pessoas que nos desejam mal.

Livrai-nos das invejas que nos perseguem em nossos lares e onde estivermos trabalhando.
Assim seja
Com a prece ao senhor JOÃO DE CAMARGO
Será abençoado por DEUS

JOÃO DE CAMARGO BARROS

* 05/07/1858
 -|- 28/09/1942   

 


 

A passagem

O trabalho de Alcir Guedes descreve ainda como um irmão de Isaura de Oliveira Borges, identificado apenas como Benedito na reportagem, percebeu a morte de Nhô João de Camargo: "Naquele tempo, nossa família morava na rua Guaianazes. Meu irmão Benedito, quando tirava água do poço, largou da corda, olhou para o céu e gritou para a família: Venham todos ver! Os anjos da guarda estão levando Nhô João de Camargo".

Foram à capela. De fato, o ex-escravo estava morto. Era o dia vinte e oito de Setembro de 1942. Nhô João de Camargo deixava esta existência exatos 84 anos, dois meses e 23 dias depois do seu batismo.

Na pesquisa de Paulo Tortello, informar-se que o necrológico do "preto velho e bom da Água Vermelha" vinha assinado por Jrandyr Baddini Rocha, redator-chefe do jornal Cruzeiro do Sul, que mancheteara no alto da primeira página: Morreu João de Camargo.

Quem assistiu, conta que o enterro foi um dos mais concorridos da história de Sorocaba. Uma dessas testemunhas entrevistadas por Alcir Guedes foi Antônio Moreno Borges. Segundo ele, uma multidão - cerca de seis mil pessoas, o maior féretro já registrado até então na cidade - acompanhou orando o sepultamento de Nhô João: a imensa maioria composta de pessoas pobres e humildes, do povo sofrido a quem Nhô João dedicou seu trabalho. Mas havia também alguns carros, raros na época, pertencentes a pessoas mais abastadas, a quem Nhô João também nunca negou auxílio.

O caixão foi levado nas mãos de populares. Segundo Antônio declarou a Guedes, pouco antes do caixão passar à sua frente, as portas da Catedral foram fechadas, pois não se queria que o corpo adentrasse a ela. Ele conta que o cortejo parou alguns instantes à frente da Catedral, mas apenas para que o caixão trocasse de mãos. Antônio narra: "Ninguém condenou os padres. Era uma ordem da própria igreja, que não recebia corpos de suicidas, de macumbeiros. Mas havia uma diferença com Nhô João: ele não era macumbeiro, não era assassino, não era suicida. Nada disso. Ele era um homem de coração muito bom. Era mais santo do que pecador e mais anjo do que humano. Foi uma injustiça que fizeram com ele".

Foi sepultado no Cemitério da Saudade. Cerca de seis anos depois, João Mena, devoto, erigiu sobre o túmulo uma reprodução da Capela do Senhor do Bonfim. O túmulo é, como a capelinha, ainda hoje muito procurado pelas pessoas, que deixam lá pedidos de toda ordem. Os devotos acendem velas, oram, meditam e deixam flores sobre o túmulo. Exatamente como Nhô João de Camargo fazia na Cruz do Alfredinho, cerca de cem anos atrás.

Escravo de Camargo Barros

Como todos os outros negros tirados á força da terra-mãe África, os antepassados de João deixaram identidade e memória nos porões de algum dos infames navios negreiros. Era só João. Como era escravo da família Camargo Barros, em cujas terras trabalhava, deles herdou o sobrenome. Virou João de Camargo Barros. O detalhe infamante: "de" do sobrenome pode ser entendido também como indicativo de propriedade. Era João de Camargo Barros, como o moinho de Camargo Barros, o campo de Camargo Barros...

Escravo não tem direito a memória, assim como não existe versão de quem perdeu a batalha. Os perdedores simplesmente perdem, não lhes é dado contar histórias. O que se sabe da ascendência de João?

Histórias e versões que se perdem no tempo. Resgatar a trajetória de qualquer ser humano no planeta é trabalho complicado, quanto mais a história de Nhô João, assunto que mexe com valores extremamente íntimos das pessoas, principalmente aquelas que o conheceram ainda em vida na Terra. Diversos autores, sorocabanos ou não, ocuparam - se de escrever essa rica e complexa biografia. Creio que todos tenham tido uma dificuldade comum:não raro, um mesmo episódio da vida de Nhô João aparece com duas ou mais versões, como costuma acontecer quando, lanterna na mão, retornamos ao passado em busca de uma história.Impreciso, envolto numa densa nuvem de incertezas, o passado se nos apresenta multifacetado, não raro confuso; não sendo improvável que algum dos autores - este inclusive - tenha derrapado em alguma das múltiplas armadilhas que se sucedem na pesquisa. 

Não que se atribua necessariamente dolo ou má-fé ao entrevistado ou fonte imprecisos. que assuntos dessa envergadura trazem consiga uma fonte carga de emoção e, nessas condições, é difícil manter a isenção e a precisão no fornecimento da informação solicitada. Portanto, é preciso garimpar, selecionar, classificar, armazenar, atribuir diferentes pesos e níveis de importância, e só a partir daí procurar esboçar o desenho lógico do texto.

Não se fie o leitor: todos estes cuidados garantem, no máximo, um erro diferente. Mas talvez haja algum acerto também. isto posto, vamos em frente. Entre outros que se dedicaram ao assunto temos Antônio Francisco Gaspar - autor do livro Cruzes e Capelinhas -, Fernando Antônio Lomardo e Sônia Castro - autores do livro O Solitário da Água Vermelha -, Paulo Tortello - membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba e da Academia Sorocaba de Letras, autor de fundamentada pesquisa sobre o tema, intitulada João de Camargo, o Milagreiro de Sorocaba -, Florestan Fernandes, Genésio Machado - autor do livro João de Camargo e seus Milagres - e A.C. Guerra da Cunha - que apresentou versões extremamente interessantes em artigo publicado no Jornal Diário de Sorocaba, em 1981-, além do Jornalista Alcir Guedes - que publicou uma série de quatro reportagens no extinto semanário A Cidade, em 1984. Podemos citar ainda Afolfo Frioli, Rogich Vieira e o professor Benedito Cleto. Há, certamente, outros autores que não foram alcançados por este trabalho.

O que sabemos do passado: nos idos de 1858, provavelmente em junho ou julho, nasceu um bebê do sexo masculino, a quem foi dado o nome de João, na fazenda do Cocais, de propriedade de Luís de Camargo Barros. Não há referências ao pai. Era filho da escrava Francisca, mais conhecida como Nhá Chica e, segundo o sociólogo Florestan Fernandes, "dada a práticas de curandeirismo". Já Fernando Antônio Lomardo e Sônia Castro mencionam a escrava como grande conhecedora de ervas e iniciadora de Nhô João no universo das curas espirituais. Voltando aos fatos: há também duas versões, sobre o destino inicial de Nhô João. No dizer de Fernando Antônio Lomardo e Sônia Castro: "negrinho dado para a família Camargo Barros com seis anos de idade e passou a ser pajem da recém-nascida da família, Emília Camargo Barros, de quem foi dedicado criado até seu casamento". No entanto, A.C. Guerra da Cunha, mencionado na pesquisa de Paulo Tortello, informa que Nhô João foi doado á família Camargo Barros com um mês de vida, já sendo sua propriedade quando do nascimento da menina.

Como não se sabe o dia exato, seu nascimento passou a ser comemorado no dia de seu batismo, que ocorreu na Igreja de Sarapuí em 5 de Julho de 1858, em cerimônia conduzida pelo Frei Jerônimo. Segundo Paulo Tortello, sua apresentadora foi Gertrudes de Barros, seu padrinho foi José de Camargo Barros e sua madrinha a Padroeira de Sarapuí, Nossa Senhora das Dores.

Já se mencionou acima que a "parte África", se é que a podemos chamar assim, de Nhô João foi herdada de sua mãe, a escrava Nhá Chica, que teria lhe transmitido seu repertório de valores, tradições e costumes. Por sua vez, a iniciação de Nhô João nos valores católicos foi feita dentro da casa da família Camargo Barros. A dupla Lomardo/Castro atribui essa função a Luís de Camargo Barros, dono de Nhô João. Já Tortello indica sua sinhá, D. Ana Tereza de Camargo, católica devota e praticante, como a iniciadora na religião. De qualquer maneira, as pistas da formação católica de Nhô João apontam coerentemente para dentro da casa dos Camargo Barros.

Depois do casamento de Emília ( A.C. Guerra da Cunha informa que seu nome completo era Emília Almeida de Camargo Barros ), Nhô João foi trabalhar na roça até chegar a Sorocaba, aos 22 anos de idade, no ano de 1880. Afirma - se que ele trabalhou, entre outros, com o médico Ignácio Pereira da Rocha, o engenheiro alemão identificado apenas como Dr. Cosme e Elias Lopes Monteiro. Tortello menciona ainda Deodoro Gonçalves e Waldomiro Baddini.

Depois da Abolição e da República, ficou livre. Sabe - se que esteve em Itararé no ano de 1893, servindo como voluntário no Batalhão Paulista que combateu a revolução de Gumercindo Saraiva. Após o retorno, consta que Nhô João foi trabalhar como camarada na propriedade de Justiniano Marçal de Souza. 

Prisões

A série de reportagens de Alcir Guedes informa que dezoito vezes João de Camargo Barros foi preso pelas autoridades. Alegação: curandeirismo. Pressões, naturalmente, advindas dos meios eclesiásticos e policiais, que lhe faziam fortíssima oposição. Por ocasião de sua última prisão, vendo que Nhô João continuava a fazer suas curas apesar de terminantemente proibido pelas autoridades ( pois continuava a ser procurado pelos necessitados, a quem jamais fechou as portas ), o delegado disse - lhe que registrasse a capela como centro espírita e aí sim poderia continuar curando e benzendo. Foi o que Nhô João fez. As prisões cessaram, mas a campanha contra ele continuou intensa.

O número de prisões coincide com a pesquisa de Tortello, que atribui a informação ao fotógrafo Barbosa Prado, que as teria colocado em forma de vezes.

Há referências ainda a um fato relevante: as autoridades policiais fecharam a capelinha no ano de 1913. As pressões intensas fizeram com que Nhô João fosse processado por curandeirismo. Mas ele foi absolvido pelo Juiz Rodolfo Ferreira Santos e a igreja foi reaberta. Segundo Nelson Casagrande Júnior, perito da Polícia Técnica, o inquérito simplesmente desapareceu.

Apesar de tudo, João de Camargo prosseguia fazendo o bem. Seus remédios eram simples folhas e água fluidificada. Na realidade, o que curava mesmo era a fé, e isso João de Camargo fazia questão de deixar claro aos que o procuravam. Sabe - se atualmente, por experimentos científicos ( sugere - se a leitura da revista Isto É, edição de 31/05/98, página 142 ), que a fé é uma poderosa aliada do homem, com reflexos positivos inclusive no corpo físico, estando provado que quem tem verdadeira fé é mais capacidade a superar doenças do que aquele que é descente. Série de coisas simples: a fé aumenta a autoconfiança, diminui a ansiedade, funciona como calmamente natural. Não tem contra - indicações.

Mas ele nunca obrigou ninguém a fazer nada. Nunca foi procurar quem quer que fosse para oferecer seus trabalhos. Quieto, humilde e discreto, não se furtava a ajudar quem o procurava, tendo suas portas sempre abertas para ricos ou pobres. E, principalmente, fez o bem a pessoas necessitadas e jamais voltou - se contra seus perseguidores, cumprindo ao pé da letra o ensinamento de Jesus Cristo, que manda oferecer a outra face a quem lhe esbofetear. Foi tratado como marginal - coisa que nunca foi - e taxado de curandeiro - quando devia ser chamado de curador, pois de fato curava. Os depoimentos dão conta de que Nhô João, antes de curar o corpo do necessitado, curava - lhe primeiro a alma, repondo - lhe generosas doses de fé em Deus e amor ao semelhante.

Ocorre que a natureza da revelação que foi dada ao ex-escravo não comportava exclusões. Para Nhô João, todas as pessoas eram importantes, mesmo aquelas que o detratavam; em seu estilo simples, cuidava de corrigir, orientar e recolocar no caminho certo aqueles que estivessem fora do rumo da caridade e da solidariedade. Nunca deixou de recomendar aos que o procuravam em busca de auxílio que não deixassem jamais de lado os ensinamentos da Igreja Católica. A fé de João de Camargo era plural, era universal em sua singeleza e simplicidade. 

As mãos que davam a cura eram as mesmas mãos que ajudavam materialmente os pobres, de quem João de Camargo jamais descuidou. Dava - lhes onde morar, o que comer, com que se vestir. A pobreza ali jamais foi envergonhada, mas sim decente e digna. Um de seus grandes aliados, segundo o trabalho de Alcir Guedes, foi o Capitão Grandino, que comparecia com auxílio material, doando tijolos e outros materiais de construção, utilizados na edificação da capelinha.

 


BIOGRAFIA

 

 Entrei pela primeira vez na Capela do Senhor do Bonfim pouco depois das 13 horas do dia 12 de maio de 1998. Embora nascido em lar católico, tendo mais tarde participado de diversas atividades comunitárias e sendo vicentino da Conferencia Nossa Senhora Aparecida, junto com meus saudosos e queridos Máximo de Tate e Sete Belo, confesso que nunca me agradei com as imagens de santos. Nunca vi muito sentido nisso, preferindo conhecer a biografia do santo a adorar sua imagem, mas reconheço que sou, quando muito,dono da minha própria verdade e que cada pessoa tem o direito de professor sua fé da maneira que melhor entender, observado o limite do respeito aos direitos do próximo.

A minha forma pessoal de expressar fé em Deus e em Jesus Cristo não contempla a adoração de imagens. O que é direito e problema absolutamente meu.

Por isso, ao entrar na capelinha de João de Camargo naquele início de tarde, confesso que fiquei um tanto quanto decepcionado quando vi a profusão de imagens que povoa o local. Fiquei ainda mais surpreso quando percebi que, ao lado das imagens dos santos e santos da Igreja Católica, conviviam pacífica e harmoniosamente outras imagens e representações diversas, de padres falecidos, políticos e outros personagens de nossa história.

Ainda mais apalermado do que habitualmente sou, só consegui me perguntar: como é que logo ele, tão desapegado aos valores materiais, pode se aferrar de forma tão radical ao culto de imagens ? Porque a transmissão de sua mensagem de paz requer o uso de tantos quadros e esculturas ?

No entanto, a contemplação daquele cenário tão singelo, aquela paz poderosa, aquela serenidade tão impecável foram me abrandando e uma ampla compreensão foi gradativamente tomando conta de meu ser. Não a compressão que eu anteriormente buscava, com respostas claras para minhas perguntas lógicas; mas sim o entendimento completo do lugar em que eu me encontrava.

Havia, sim, uma energia poderosa ali. Alguma coisa de muito importante aconteceu naquele local, só que ninguém além de Nhô João - e, talvez, nem ele mesmo - pode dizer o que foi. E aquelas imagens não eram para serem entendidas em seu sentido literal, cru, mas sim em seu sentido simbólico. As coisas não são coisas em si, mas sim aquilo que representam. No caso, representam o universo e o imaginário de um homem simples que foi escolhido para receber uma espécie de iluminação. Vencido, entreguei-me á contemplação de cada detalhe e fui aprendendo que a fé não pode ser explicada, mas somente sentida, e que também é necessário ter humildade para ser aceito nos diversos ambientes. Eu estava na casa de Nhô João de Camargo, e aquilo era um pouco ele, tinha a mão dele, o jeito dele de fazer as coisas, o modo dele de arrumar as coisas. O vislumbre do Eterno que foi dado a Nhô João de Camargo estava expressa ali, em cada canto da capelinha. Quando percebi isso, chorei.

Não consegui pensar logicamente em mais nada. Ali a lógica cede vez á mágica. Aquela pequena ilha de placidez e tranqüilidade bem no meio da agitação e do trânsito intenso da Avenida Barão de Tatuí não é lugar para pensar na dureza da vida que se leva e nem de pensar na competição e na luta do cotidiano, onde a gente faz bem que pode e, tantas vezes, o mal que não quer. Ali é lugar para parar, pensar, refletir e tentar entender este planeta como um barco de luz azul flutuando no universo, levando em seu bojo uma humanidade que parece ter perdido o sentido da bondade e da fraternidade. Essa talvez seja a essência da mensagem de Nhô João de Camargo: lembrar - nos a todos que somos todos irmãos em humanidade independentemente de religião, raça ou classe social.

Eu tinha este trabalho mais ou menos desenhado na cabeça, mas a visita á capelinha desarticou meus planos. Desisti de pensar e entender, e dediquei - me a apenas sentir. Tentei escrever com o coração este trabalho sobre Nhô João de Camargo. Não sei sei minhas limitações permitiram que fizesse. mas fico satisfeito de pelo menos ter tentado.

Onde situar Nhô João ?

Como todos os homens, Nhô João nasceu, viveu e morreu, cumprindo o ciclo comum. Teve uma trajetória, fez suas opções, em determinado momento de sua vida elegeu suas convicções e passou a viver de acordo com elas. Como pode acontecer com todos os homens , teve seus momentos de dúvidas, desesperos, enganos, erros e desacertos, até encontrar um caminho que considerou correto e trilhou por ele, sem medo e sem duvidar da força da fé. 

Contrariou padrões estabelecidos, penou por isso, mas ninguém pode duvidar da autenticidade poderosa de sua fé e da encantadora singeleza de sua mensagem universal. Sem discriminar ninguém, a todos atendendo com bondade, Nhô João vivenciou um mundo plural, que tem lugar para todos os homens viverem em união; que tem lugar para todas as crenças; que tem lugar para todas as correntes de opinião, mesmo aquelas professadas pelos que a combateram. Tratou seus detratores com doçura, não se sabendo de mal que tenha tido origem em seu coração. Sua mensagem pode ser entendida em resumo como a prática da caridade e o exercício da fé em Deus. Este trabalho não pretende ser um ensaio filosófico, mas é impossível deixar de fazer algumas relações e associações ao analisarmos alguns aspectos da existência de João de Camargo Barros.

Segundo Jostein Gaarder, autor de "O Mundo de Sofia", o existencialismo - corrente de pensamento que entende ser o homem na sua existência concreta o objeto próprio da reflexão filosófica - foi iniciado pelo filósofo dinamarquês Sören Aabye Kierkegaard ( 1813/1855 ). Uma vez condenado à liberdade, surge o homem como arquiteto de seu destino, embora submetido a limitações concretas. Existencialista cristã, para Kierkegaard a questão da fé é uma das Deus objetivamente, pois a questão da fé em Deus e na ressurreição de Jesus Cristo é eminentemente subjetivo. Ou seja, Gaarder ensina que, na contramão de outras correntes de opinião que tentaram provar a existência de Deus pela razão, Kierkegaard acha que se queremos entender Deus objetivamente é porque não cremos, e só cremos porque não podemos entender objetivamente. Ou seja, lançar-se em busca dessa verdade, a crença na existência de Deus - ou, no caso dos cristãos, acreditar que efetivamente Jesus Cristo ressuscitou no Domingo de Páscoa -, é uma questão crucial e estritamente pessoal com a qual todo indivíduo vai ter que se deparar em algum momento de sua vida. É esse crer ou não crer que faz a diferença para Kierkegaard, para quem, se cremos, não temos alternativa senão irmos fundo nessa fé religiosa, vivenciando-a às últimas conseqüências.

Kierkegaard, a partir de uma perspectiva cristã, também dividiu a existência humana em três estágios possíveis: estético, ético e religioso. Ele utiliza o termo estágios por comportar a possibilidade de transmigração de um para outro em determinados momentos.

No estágio estético, o indivíduo vive em função de seus prazeres, do que é sensorialmente agradável e propicia algum tipo de prazer. Ao mesmo tempo em que extrai prazer dessa vivência intensamente lúdica, Kierkegaard acredita que o indivíduo vira uma espécie de escravo de seus próprios desejos. No limiar da passagem para o estágio ético, o ser sente a necessidade de adotar decisões mais consistentes na esfera pessoal, cientificando-se da gravidade da vida. É o momento em que as decisões são tomadas não para a satisfação do prazer física ou não, mas sim obedecendo a parâmetros éticos rigorosos. Kierkegaard afirma ser possível um retorno do indivíduo ao estágio estético no final da existência, oportunidade em que - cansado de levar a vida a sério demais e vislumbrado o fim próximo - retorna a priorizar os aspectos lúdicos da vida. Porém, acredita Kierkegaard, pode acontecer, para pouquíssimas pessoas, uma sublimação, com o salto de qualidade do estágio ético para o religioso, que o filósofo interpreta como a vivência integral do cristianismo em todos os seus aspectos.mais importantes da existência humana, notadamente a fé religiosa. Em sua opinião, não se pode nem se deve entender

É impossível deixar de identificar esses três estágios na trajetória humana de Nhô João. As vivências dessas três fases estão perfeitamente definidas, bem como a firmeza da decisão da passagem para o estágio religioso, com todas suas conseqüências.Ainda há um outro aspecto de Kierkegaard que pode ser utilizado neste raciocínio. O filósofo dinamarquês não considerou relevante a busca por uma única verdade. Para ele, mais importante do que saber se existe uma verdade, é saber se podemos abraçar essa verdade. Dessa forma, mais importante do que saber se o cristianismo é verdadeiro, é saber se o cristianismo é verdadeiro para o indivíduo - na visão de Kierkegaard.

Assim sendo, considerando que a existência é curta demais para ficarmos reduzidos à contemplação, Kierkegaard entende fundamental a ação humana: ao fazemos opções no campo religioso, devemos ir às últimas conseqüências.

A conferir no prefácio do texto "O Desespero Humano ( doença até a morte )", de Kierkegaard: "Ousarmos sermos nós próprios, ousar-se ser um indivíduo, não um qualquer, mas este que somos, só face a Deus, isolado na imensidade de seu esforço e da sua responsabilidade: eis o heroísmo cristão, e confesse-se a sua provável raridade; mas haverá heroísmo no iludirmo-nos pelo refúgio na pura humanidade, ou em brincar a ver quem mais se extasia perante a história da humanidade? Todo o conhecimento cristão, por estrita que seja de resto sua forma, é inquietação e deve sê-lo, mas essa mesma inquietação edifica. A inquietação é o verdadeiro comportamento para com a vida, para com nossa realidade pessoal e, conseqüentemente, ela representa, para o cristão, a seriedade por excelência".

Em suma, para Kierkegaard prevalece a verdade individual sobre a verdade única, valendo a concepção de mundo que cada pessoa tem, advinda de seu repertório formativo e informativo. Em João de Camargo, esses elementos são rigorosamente nítidos, mais especificamente na capelinha, que reproduz materialmente a visão do Eterno que o ex-escravo teve na Cruz do Alfredinho. Na capelinha está presente a interpretação daquilo que Nhô João vivenciou no plano espiritual: é a leitura que fez, conforme sua bagagem repleta de simplicidade, singeleza e espiritualidade. São as verdades plurais e cristãs de João de Camargo

 

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Da janela do alto da casa ele está
e quando ele surge
o céu fica negro
Ou vermelho

Tem a força de um gigante
e a alma se perdeu
tem a dor por sua amante
e mulher

Quando olho pro espelho
não vejo mais rosto é vermelho,lobonegro1
azul, escuridão...

Os passos do mostro
Relâmpago no portão
Frankstein está a solta...


Metade homem, metade nada
que toma inteiro
sem caneta nem tinteiro
pra remediar...

Comprando almas e cobras
espalha pedras e cobres
em cada rua que dobras
deves olhar pra trás


Quem fere a fera inocente
merece lâmina fria
quem quiz ser monstro indecente
não pode ouvir a poesia

Eu tenho versos e trapos
com fel e açucar mascavo
Tenho um veneno guardado
Pra pra dissolver num so trago
Um lobo negro...sem alma.

 

 


 

 

A minha alma do avesso...Cada ínfima célula do meu corpo...trocando energia com o mundo...aprendendo a viver com a vida e não com o dicionário...porque nenhuma palavra definirá o milagre e o prazer de ser EU...o eu que eu conheço...desconhecendo...

 Ah! insensato coração
Por que se apaixonas assim??
Se sabes que amor
Acaba rimando com dor

Ah! insensata paixão
Por que me tomas assim?
Como labaredas ardes
harmoniaE me consome
Faz meu corpo tremer
Faz-me renascer
E enlouquecer

Ah! insensato sentimento
Por que se entregaste ao momento?
Se tudo é uma ilusão.
Afinal...não tens coração?
Não tens pena de fazê-lo sofrer assim?

Como folha ao vento
Deixa-se levar
Flutuando na ilusão
Figuração dessa história
Que não sei qual o seu fim
Se vivo a realidade
Ou a mentira de um amor
Que criei na minha fantasia
E insisto em acreditar
Para verdadeiro se tornar